Na manhã seguinte, pedi a Claudia para comprar as coisas que a Andressa mais gostava de comer e montar seu café da manhã. Não tinhamos tido uma boa noite de sono, eu estava muito preocupado com o Breno, com ela, não consegui pregar os olhos. Levei até o quarto, ela estava encolhida feito uma bola no centro da cama. Deixei a bandeja na beira e fui até ela. Ajoelhei no chão e olhei em seu rosto pálido.
- Oi.
- Oi. - me encarou. - Você tem notícia do Breno?
- Sim, meu pai ligou e disse que a febre dele abaixou um pouco, que ele precisa ficar em observação, mas que logo estará em casa.
- Graças a Deus. Estou com muita saudade dele.
- É estranho aqui sem ele. - ri uma risada sem som e humor
- Bastante.
- Trouxe algumas coisas pra você comer.
- Eu não..
- Por favor, come hoje Andressa. Você mau tocou no mingau de ontem, e antes não tinha comido nada. Eu comprei um monte de coisa que você gosta, você precisa se alimentar, imagina você doente também? - esperei por uma resposta mas não veio. Ela levantou e foi ao banheiro. Fiquei esperando-a e minutos depois ela apareceu e sentou na cama puxando a coberta. - Você vai?
- Sim.
Coloquei a bandeja em seu colo e sentei ao seu lado. Ela sorriu doce, fiquei tão feliz por isso. Ela beijou meu maxilar.
- Eu te amo
- Eu sei, eu te amo mais.
- Você comprou churros pro café da manhã? - ela sorriu pouco.
- Eu precisava de algo que faria você comer.
- Eu vou comer as outras coisas também. - segurei em sua mão e beijei seus dedos.
Ela comeu um pouco de cada coisa, e fiquei satisfeito, tenho certeza que foi mais do que ele comeu no último dia. Estava tentando animar ela, mas logo ela caiu em si novamente e se fechou. Conversar com ela era a mesma coisa de falar com a parede. Assim que ela pegou no sono, deitei ao seu lado, queria conseguir dormir mas estava impossível. Ela acordou assustada com o barulho da campaínha.
- Calma. - sua respiração ficou ofegante em segundos - Andressa, foi só a campaínha.
- Ah. - colocou a cabeça em meu peito - assustei, estava tendo um pesadelo horrível. - suas lágrimas molharam minha camiseta - Estou com medo, e se eles vim atrás de mim.
- Ninguém vai vir atrás de você. Confia em mim.
- Vai sim.
- Não vão.
- VAI SIM, ELES ME FALARAM.
- Não vão, Andressa. - ela agarrou forte minha camiseta.
- Você não vai deixar né?
- Nunca mais.
- Você não vai deixar né?
- Não.
- Eu to com medo.
- Vocé está protegida, Andressa.
- Eu, não sei. To com medo, eles falaram que vão me matar da próxima vez.
- Ninguém. Vai. Encostar. Em. Você.
- Você promete?
- Sim, ninguém vai. - ela estava quase rasgando minha camiseta pelo tanto de força que estava colocando. Ouvimos passos do corredor. Ela se encolheu e me apertou.
- Você disse que eles não iam vir, estão vindo, não deixem eles me encostar, por favor. Luan. Eles vão me pegar de novo, eles vão me matar. - olhei de relance para os pais deles que adentraram o quarto, mas ela estava todo encolhida em baixo da coberta. - Luan, eles vão me pegar.
- Ninguém vai te pegar. Eu não vou deixar. Olha pra mim.
- Eu não posso sair daqui, se eles me reconheceram vão me pegar.
- Andressa, olha pra mim.
- Não. - ela tremia - Eles estão aqui.
- Não estão amor.
- Filha. - ela arregalou os olhos soltando a coberta.
- Você ouviu? Minha mãe, eles estão com ela?
- Eles não estão aqui, amor. Ninguém vai vir atrás de você, por favor confia em mim.
- Filha, sou eu. Olha pra mim.
- Não.
- É sua mãe.
- Eu to com medo, se eu tirar a coberta eles vão estar ai. - sai da cama, ajoelhando no chão e segurei seu rosto. - Só está nos quatro aqui no quarto, são seus pais, não tem mais ninguém aqui, nada mais vai acontecer com você Andressa, nada mais. Ninguém NUNCA mais vai encostar em você. - seu rosto estava suando muito.
- Promete?
- Promete. - ela ficou me olhando com os olhos redondos como nunca tinha visto. - Eles estão aqui.
- ELES QUEM.
- Seus pais, Andressa. - falei suave e baixo. Segurei sua mão e beijei sua testa.
Minutos depois consegui tirar ela de baixo da cabeça. O tempo todo els segurou firme em minha mão. Sua mãe quando a viu chorou ainda mais. Andressa não me soltou, ficou olhando sua mãe e chorando silenciosamente. Acariciei seus cabelos. Joana veio tocar nela e ela se afastou.
- Eu estou suja, mãe.
- Ohh.. você não está.
- Eu estou. Eu não queria que vocês me visse assim.
- Somos seus pais.
- Acabaram com a minha vida, mãe. Destruiram o que eu demorei anos para conseguir me ajudar. Eu estou suja, SUJA. Eu não consigo dormir sem ter um pesadelo. Eu estou assustada mãe, eu estou assustada.
- Nos vamos te proteger, meu amor. Viemos te ajudar. Eu sou sua mãe, eu estarei sempre disposta a te ajudar.
- Estou envergonhada. Eu deixei outras pessoas que não é meu namorado tocar em mim. - fechei os olhos
- Você não teve escolha. Olha pra mim, tem coisas que são inevitáveis. Ele te ama da mesma forma, ele sabe que você não teve culpa.
- Mãe, porque eu tive que passar por isso, porque. Porque eu, porque eu, será que eu merecia isso, eu merecia passar por isso? eu coloquei a vida do Breno em risco, eu não estava preparada pra ser mãe, meu filho está no hospital internado e eu estou aqui, eu quera estar com ele, mas eu estou com medo, eu estou com muito medo, eu sou covarde, eu devia estar com ele, se ele está assim é por minha culpa, mas eu tenho medo de sair daqui, eu não consigo. Eu não queria nunca passar por isso, isso é um pesadelo em que vivo acordada.
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